Logon

Escola

Em cada nome uma história

O Projeto denominado “Escola – Em cada nome uma história” pretende buscar a identidade dos patronos das Escolas Públicas Estaduais de Goiás, numa busca pelo reconhecimento, por parte da comunidade escolar e da sociedade em geral, aos baluartes que fizeram de suas vidas um ideário de trabalho em prol do outro e que, por esse motivo, foram perpetuados, intitulando instituições de ensino. Saiba mais...
história

Col. Est. Jaime Câmara

Col. Est. Jaime Câmara

Jaime Câmara (1909-1989), nome importante da história.

Jaime Câmara foi fruto de si mesmo e de seu trabalho. Como tantos outros nordestinos ele sonhou em conquistar um espaço na sociedade e assim o fez a custa de sua inteligência, arrojo; jamais perdendo a atitude humanitária que norteou seus caminhos nas estradas desse mundo.

Por esta razão, seu nome, com muita justiça, é lembrado em escolas municipais e estaduais em Goiânia, salas de instituições culturais, ruas, creches, viadutos e, notadamente, na Fundação Jaime Câmara, sua obra maior, pioneiro da comunicação no Estado de Goiás.

Na Secretaria de Estado da Educação foi homenageado com a intitulação de Colégio Estadual Jaime Câmara, situada na região do Bairro Floresta em Goiânia, dirigido pela professora Cleidimar de Almeida Leite, jurisdicionado a Subsecretaria Metropolitana de Educação. A escrita de seu nome é com "i" (Jaime) e não com "y" (Jayme), sendo esta assinatura familiar, de ascendência Pirenopolina, a família Jayme de Goiás. Há, de forma recorrente, um equívoco quanto a isso.

Como escreveu Cora Coralina em "O 345 da Avenida Goiás" em junho de 1980m no Jornal O Popular: "Jaime Câmara cresceu e ajudou Goiânia a crescer. Não especulou e nem fez o jogo da sorte. Trabalhou, preferiu construir, ligou sua construção a Goiânia, cresceu e se inseriu no destino da cidade e continua com ela numa simbiose irreversível". De fato, seu exemplo se destaca pelo pioneirismo e pelo trabalho incessante até o esgotamento orgânico que marcou o seu fim.


Jaime Câmara discursando na Academia Goiana de Letras. Secretariando a reunião o Poeta José Lopes Rodrigues. Arquivo de Bento Fleury

Sua vida de 80 anos foi coroada de esforços e vitórias que não lhe impuseram vaidades inúteis e seguiu trabalhando sempre no ramo da comunicação, da literatura e da história.

Natural de João Câmara no Rio Grande do Norte onde nasceu em 1909, de lá saiu ainda bem jovem para tentar a sorte no sul do Brasil, ficando em Goiás, velha capital, cidade que então lhe oferecia oportunidades de expansão de seus sonhos de empresário e empreendedor, embora fosse fechada na aceitação do novo e do forasteiro. Mas Jaime Câmara ousou.

Quando ali chegou, a velha cidade já vivia a fase agitada dos estertores da República Velha e a quebra de tabus arcaicos de uma sociedade conservadora e patriarcal, fatos esses que motivaram sua inteligência literária e se frutificaram nos livros Nos tempos da mudança e Nos tempos de Frei Germano.

Como jovem dedicado, naquela época, uniu-se ao idealismo de outros tantos e fundou a AGI pelo trabalho de Albatênio Caiado de Godoi. No jornal A Razão, propiciou a discussão de fatos da época, embora de limitadas proporções. Vitoriosa a Revolução de 1930, a velha capital de Goiás viu, estupefata, o reacender da velha e controvertida ideia de transferência da Capital para local de melhor acesso, o que provocou uma revolução social e intrigas políticas e rotineiras que agitaram a antiga cidade de Bartolomeu Bueno.

Mudada a Capital em 1937, Jaime Câmara integrou a corrente de pioneiros que sonharam os sonhos de Pedro Ludovico Teixeira e aqui fundou em 1938 o Jornal O Popular que até hoje continua sendo o maior veículo de comunicação da capital goiana, de insuperável prestígio. Aqui se uniu ao talento de Célia Câmara e criou a família, sendo homem de reconhecida devoção aos seus.

Não só como empresário Jaime Câmara atuou. Homem de múltiplas atividades interligou-se à vida política de Goiás, eleito Prefeito Municipal de Goiânia em 1958, Deputado Federal dez anos depois, em 1968, pela ARENA e, mais tarde, eleito novamente em 1982, pelo PDS, com expressiva votação.

Fundou a Rádio Anhanguera, O Jornal de Brasília em 1964, Televisão Anhanguera e todo o complexo de comunicação que hoje se multiplica em atividades enobrecedoras.

 Foi ainda membro da Academia Goiana de Letras, Academia de Letras e Artes do Planalto, Instituto Histórico e Geográfico de Goiás, patrono da Academia Trindadense de Letras, recebeu diversas medalhas, comendas e títulos e foi, sobretudo, um homem de fé em Deus, católico praticante, pois sempre, quando menino, via-o na Novena de Nossa Senhora do Perpétuo Socorro, às três horas da tarde das quartas feiras na velha matriz de Trindade, misturado à singeleza dos fiéis naquela hora discreta e pouco movimentada.

Aquele que se ajoelhava ante o altar de santos antigos era o verdadeiro Jaime Câmara.


Reportagem em que mostra Jaime Câmara entregando seu livro Nos tempos da mudança, ao então governador Otávio Lage.

Há exatos 45 anos, o jornalista, empresário, político Jaime Câmara fazia a sua estréia literária com a publicação do livro Os tempos da mudança em que, como arguto pesquisador, rememorou os fatos políticos e sociais de um importante período da história de Goiás, nos agitados anos que sucederam a Revolução de 1930 e que reacenderam a idéia de transferência da capital para um local de melhor acesso e com condições de desenvolvimento para todo o Estado.

Essa obra foi importante para a discussão de um tempo de dificuldades e perseguições políticas e demolição de conceitos, numa sociedade arcaica e fechada como a de Goiás, que vivia plasmada em uma cidade de tradições ultrapassadas e que se firmava naquela política reduzida do coronelismo, como era comum em todo o Brasil no período da República Velha.

Certamente, o próprio escritor Jaime Câmara sofreu para ser aceito numa sociedade pequena e tacanha, amedrontada ante os aventureiros e trabalhadores que chegavam, principalmente do nordeste, valendo-se de seu trabalho e de seus irmãos na pequena indústria gráfica, ainda nos anos 1920, em parceria com Henrique Pinto Vieira, na Cidade de Goiás.

Na noite de 27 de dezembro de 1967, no antigo e saudoso Bazar Oió em Goiânia foi lançado o livro Os tempos da mudança pelo jornalista e empresário Jaime Câmara com o selo da Editora Cultura Goiana, trazendo, na epígrafe, o trecho de um discurso de Alfredo Nasser e de Pedro Ludovico sobre os distantes tempos da transferência da capital e os entrechoques políticos que se verificaram nesse tempo.

Publicada a obra, esta recebeu diversas considerações da crítica especializada e de diversos segmentos da cultura e da política goiana como o prefeito de Brasília, Wadjo da Costa Gomide que ressaltou: "Faço votos para que todos os goianos e todos os brasileiros leiam o livro que já não é mais seu, mas da comunidade, pois a ela prestará o mais relevante dos serviços – o da informação histórica."

Rosarita Fleury, laureada escritora, então presidente da Academia Feminina de Letras e Artes de Goiás, destacou: "Com excelente documentação, o livro de Jaime Câmara traz para os dias de agora, questões que, com o correr do tempo já se transformavam em história ultrapassada e o nobre amigo escritor poderia fazer um levantamento da parte política que antecedeu a Revolução de 1930, principalmente dos fatos que originaram a oposição ao regime Caiadista".

Ao que parece, o escritor Jaime Câmara aceitou a sugestão da companheira de lides acadêmicas e fez publicar o excelente Nos tempos de Frei Germano em 1974 e que rememorou, com maestria, os últimos anos da Cidade de Goiás na condição de capital.

Escreveram ainda sobre Os tempos da mudança vários jornalistas, filólogos, historiadores, como José Luiz Bittencourt, Luso Guedes de Amorim, José Julio Guimarães Lima, Silvio de Mello, Claro Augusto de Godoy, Colemar Natal e Silva e muitos outros que foram publicados na imprensa de Goiás e do Distrito Federal.

O que mais se destaca nas obras escritas por Jaime Câmara é justamente o fato de que o autor vivenciou os fatos, tendo assim uma visão mais ampla de todo esse processo difícil de modificação histórica que ocorreu em Goiás e que modificou definitivamente o destino de uma geração. Ele conseguiu fazer uma obra que não estava escrita, estava vivida.

É então papel da educação e dos educadores propiciar uma nova reflexão sobre a produção literária e histórica de nosso Estado para que tudo o que foi produzido possa servir à posteridade, haja vista que, hoje, esses estudos e leituras têm sido postos em segundo plano, infelizmente, pelo advento da informática e de outros valores que se distanciaram do livro.

Na vida de Jaime Câmara um exemplo vivo de superação, de luta e de inteligência de um homem que, vindo do nordeste, no enfrentamento das dificuldades e preconceitos, se fez a custa de si mesmo e se transformou num luminoso roteiro a todos que ousam sonhar e crescer diante dos tropeços do mundo.


Bento Alves Araújo Jayme Fleury Curado. Graduado em Literatura e Linguística pela UFG. Pós-graduado em Literatura Comparada pela UFG. Mestre em Literatura e Linguística pela UFG. Mestre em Geografia pela UFG. Doutorando em Geografia pela UFG. Fundador da Academia Trindadense de Letras. Membro do Instituto Histórico e Geográfico de Goiás. Membro da Associação Goiana de Imprensa. Membro da Academia Itaberina de Letras (Itaberaí). Membro da Academia Catalana de Letras (Catalão). Membro da Academia Jataiense de Letras (Jataí). Membro da Academia Palmeirense de Letras (Palmeiras de Goiás). Membro da Academia de Letras de Campo Formoso (Orizona). Membro da Academia Belavistense de Letras (Bela Vista de Goiás). Professor da Faculdade Aphonsiano de Trindade. Foi Professor da UEG- Pólo Trindade. Professor da Rede Municipal de Ensino de Trindade. Servidor da Subsecretaria Regional de Educação de Trindade. Foi Professor Substituto da Faculdade de Letras da UFG. Colaborador dos jornais O Popular, Diário da Manhã, Informativo trindadense, o Comunitário trindadense, O Comunitário de Palmeiras de Goiás e o Vilaboense (Cidade de Goiás). Publicou os livros: Ser (tão) goiano (Contos); Beco dos aflitos (Crônicas em parceria com Lúcio Arantes); Saga de um povo de fé no coração do Brasil (História de Trindade, em parceria com Antonio Alves de Carvalho); Do Barro Preto ao Planalto (crônicas, em parceria com Lucio Arantes); Hélio de Britto e Célia Coutinho (Biografia), A sempre-viva Amália (biografia), Coração de terra (poemas) e Ereny Fonseca de Araújo: O centenário em páginas de amor e de saudade (biografia).